05/07/2010

O espelho.




Antes de dormir, do quarto vejo o espelho.
O que vejo não é o que enxergo. Ilusão; não posso estar vendo um espelho. O espelho é a alma de quem o vê. O espelho é a alma concretizada; não consigo entender – por mais que me seja transparente – não consigo entender a finalidade de um espelho: refletir, ora. Refletir o que? sendo que o que enxergo é apenas fruto abstrato do que desejo ver?A imagem que o espelho me revela é algo demasiado concreto, eu busco o imaterial, o irreal: a invenção de minha realidade fabulada.
O espelho é sincero: esboça apenas aquilo que desejo surpreender. É uma surpresa ao não surpreendivel. Eu?, eu apenas minto. Nós dois mentimos.
Eu tenho medo do espelho: a qualquer momento ele pode mostrar-me algo nunca visto: o conhecido. Algo implexo no íntimo assustado de mim. Talvez eu procure no espelho algo que perdi, sem ao menos ter um dia sido coisa minha: desconheço. O espelho me roubou o conhecido que por tal, tornou-se agora coisa que imita solidão: o amor.
Por mais que eu tente ver – e sei que falhamente – nada enxergo: e se vejo, paradoxalmente encontro: minha imagem fragmentária. Procuro no espelho algo que não é cabível a minha medíocre realidade: um mundo torna-se átomo diante de minha complexidade perplexa. Procuro o vazio. Nele nada me corrompe; apenas o fato de imaginar um vazio - apenas o meu vazio – me deslumbra. Arrebato-me em alegorias de um vazio que se ao menos soubesse imaginá-lo em mim, morreria de tanto viver!
O espelho me reflete apenas quando o que procuro enxergar é coisa morta. Mesmo que procuro algo de vida incumbida acharia apenas o ralo reflexo de minha face desnuda. Se tento esquecer que o espelho existe, logo sinto sua falta: minha dose diária de morte é indispensável. O que me mata? Tudo o que faz me faz ser, em especial meu reflexo.
Se a lua é habitada por ovos, a terra então...? a Terra é habitada por reflexos de espelhos. O espelho é egoísta. Pensar como um espelho me levaria à morte certa: que ótimo. Deixe-me entender ao menos a natureza de minha imagem espargida na face do objeto, depois o tentarei. Quem criou o espelho, certamente deve ser preso! Prefiro a dilaceradora de átomos: ela é mais eficaz. O espelho mata aos poucos o meu eu incógnito, antes mesmo que eu possa desvendá-lo. Quem criou o espelho é um assassino.
Queria um dia poder ser como espelho. Queria ao menos ser sincero como ele, e dizer - mesmo que calado – o que torna verdade em minha lei. As crianças nascem como espelho, após um tempo ganham sua moldura e tudo se acaba! Espelho que é espelho não possui forma.
Sabe-se lá se quanto maior o espelho maior é a imagem refletida, ou maior é sua capacidade de refletir? Nem um nem outro!
Quanto maior o espelho maior é sua capacidade de me matar. Se ele me é pequeno, enxergo pouco do que desejo ver, e quanto maior, me permite desejar algo a mais. Coisa pensada.
Os espelhos deviam ser considerados arma letal: basta um olhar direcionado e pronto, o “soldado” desfalece. Poucos suportam a concretização da verdadeira imagem refletida. Quero um espelho no meu túmulo. Quero alegrar-me ao levar junto a mim um assassino.
O espelho sempre está à minha frente. Há algo que palpita em meu peito: e não é um coração; há algo: é um espelho. Coração e espelho são velhos conhecidos: não se engana o espelho, o coração?, basta saber; é mais cabível mentir ao coração do que ao espelho. Se amo apenas digo: não amo. Se meu rosto estampa a tristeza, apenas digo: sou feliz, porém acredito em mim até encontrar um espelho: ele interrompe. Se estiver todo preto posso-me dizer branco, mas ao espelho não: ele logo refuta minha calúnia.
Se eu paro e olho o espelho: não o vejo. Enxergo apenas minha imagem. É esse o problema do espelho! Não admite segundo lugar, quer estar sempre no centro da minha ociosa atenção: o espelho deve me amar. Coisa viva que não é!
No exato instante de se ver a imagem, ela é a imitação do meu reflexo. A imagem que o espelho me da é a lembrança de algo nunca visto por mim. Olho no espelho e encontro algo que nunca foi meu e perco algo que nunca tive. Olho no espelho à procura de respostas e ele responde em um idioma que apenas meu coração decifra. Eu estou de mal com meu coração, ele não mais me diz. Há no lugar dele um espelho.
Se Jesus conhecesse o espelho diria: não olharas em objeto que lhe reflita. Não perguntarás nada a objeto algum que lhe dê respostas. Seriam esses os mandamentos divinos. Pois o espelho quer tomar o lugar do deus. A vida é coisa que transcorre ciclicamente: hoje alimentamo-nos de vida, amanha os vermes se alimentarão da nossa coisa vivida. O verme diante do espelho possui forma humana: o que é refletido á a silhueta de quem ele devorou. Quer matar um espelho? Não o quebre, o cubra. Um espelho trincado é uma leoa desgarrada de sua cria: ainda mais feroz. Espelho é coisa terrível.
Quando ando pela casa à procura de algo que perdi, cruzo com o espelho, ele logo me fragiliza. Não sei olhar o espelho, sem ao menos morrer alguns milímetros e então dose a dose vou esvaecendo de mim mesmo, aos poucos, lágrima a lágrima, até desaparecer por completo em minha imagem descalça.
O espelho me persegue: quando não se camufla em vidraça para me espionar, se esconde em carteiras iludidas. Quando saio e deixo meu reflexo no armário, logo o espelho descobre e faz questão de me mostrar contente: este eu ainda existe. Não posso fugir de mim mesmo, nunca. E o objeto sempre me recorda de que eu ainda existo. Queria ser coisa morta, aliás, estou a ponto de ser, porém quando meu primeiro pé toca o caixão o seu fundo e de vidro.
Quando o deus disse: não adorará imagem alguma, era ao espelho que ele se referia. Não consigo me adorar diante de um espelho: ele é crítico demais. Se penso que estou bem, logo ele me mostra que não se é enganável. Espelho é bicho esperto, é coisa vivida.
Olhar um espelho significa torturar o mais intorturável intimo de si próprio. Ele sempre chega até o fundo da alma, seca a ultima gota de ilusão.
Viver sem ele não é algo passível de acontecer. Ele palpita no meu peito. Possui forma ovalada, relaxada. Tomo cuidado para continuar boiando nas ondas do desajeitado complexo. Tento entender o espelho, mas não posso: não há o que entender, o espelho tem personalidade forte, isso basta.
É impossível amar o espelho: meu reflexo o ama, eu não. Há certo interesse indivisível: sem o espelho meu reflexo não existe. Também pudera ser diferente? O espelho da vida ao meu reflexo. O espelho retira minha vicissitude e a corrompe em vida ao reflexo.
Espelho com moldura é coisa domesticada, fácil de lidar. Espelho selvagem é mais cruel: esses despedaçados. A moldura é a grade que prende o espelho e o reflexo. Uma vez refletido em um espelho de moldura que agrade, o perde. Espelho amigo é de senhora: ela possui um antídoto: o orgulho. Por mais que seja verdade, com o poder ela tornar plágia a informação do espelho?
O espelho quer tomar o lugar do deus. Nos céus os espelhos são demônios. Devido a isso ele odeia feixe de luz: qualquer que seja já pensa ser divino e logo o repele. Gosta mesmo e da escuridão. Quem é mais real? O deus ou o espelho? O deus, nele eu acredito e desacredito. Faço dele coisa fabulada. Agora o espelho? Ele existe e pronto. Real é aquilo que posso mudar. O que é o concreto?:massa de pedra apenas. Nunca poderei tocar um espelho. Quando pensar, ele será mais rápido: logo fará com que eu toque minha mão.
O espelho é mais forte e eu o odeio, o invejo. Estagno-me em sua frente, preso ao meu reflexo ele me mostra, me mostra que a minha felicidade só pode haver caso exista em condição de coisa fabulada. Mostra que a minha imagem não passa de um reflexo do que querem que eu mostre. Eu amo o espelho.

Gustavo Boss

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