
Olho a janela, as estrelas parecem zombar da minha face que emana tristeza; coisa falecida se mostra mais contente: descobri que sou uma personagem.
As arestas que unem a face calva das paredes estremecem-se, cantam a melodia monótona do meu vazio. Olho com pena os móveis que parecem compadecerem-se de minha peleja. O espelho sempre irreverente, ele que é fruto da minha expiação, hoje mostrou-me: minha realidade é fabulada.
Eu sou tão mutável quanto o que não possui forma viva, sou ectoplasmático. Um conglomerado de matéria viva formado pelo nada, pelo vazio. O que dizer-me então?, o que pode alguém dizer-me sendo que tudo o que escuto não transmuta minha opinião concretizada? A imagem que esboço é o desejo mais íntimo de um sonhador, é o desejo morto, o desejo imaterializado. Digo que sou, mas nunca sou.
Transito pela casa, bobo, à procura de algo para perder. Olho de canto a canto e o que encontro é apenas a lembrança de que não vivo e sim atuo. A ilusão é a única verdade quando o que se diz real é algo arquitetado.
Paro e de súbito acomete-me ao pensamento uma idéia: o recomeço. - O recomeço que é idéia embutida terceiramente em mim, essa terrível maravilha excitante. Não sei se tenho imaginação suficiente para narrar toda uma vida sem deixar-me dominar pela influência passada: o sofrimento. Resolvo que eu, por mais que tente, não encontrarei respostas ao mistério que sou: não há nada, nem vazio; sou repleto de nada.
A dispensa de minha casa sempre foi assustadora. Assim como cada um tem um quarto de estoque em si, minha dispensa era o enigma de minha casa. Parei diante da porta, na esperança de encontrar nela, algo que nem mesmo sei se existe; na verdade eu nada procurava. Lembrava-me as insalubres masmorras medievais, a qual denota o úmido e o morto. Como a desordem me fascina, eu sou toda essa palavra.
Eu estava em meu habitat, eu me camuflava em meio à escuridão depressiva dos objetos. A falta de ordem é também organização, mas livre. Sentei-me no chão em meio a restos roídos de ratos, o tudo e o nada fundiram-se claramente, como que para eu pudesse ver.
Singularizaram-se! Nada mais era divisível. Misturei-me em meio a toda a desordem e adormeci. Do alto podia ver meu corpo desfalecido quase natural. Era uma alegria estranha. Caso a morte, se ela me desse à mão, morreria sorrindo: eu amava aquela alegria abatida. Alegria é complexa, ela se faz em momentos. Alegria é a ilusionista.
Estranho entender essa sensação de completude, já que o nada me completa. Me sentir completo me deixa vazio. Circulei. Em círculos contornei meu corpo caído, parecia algo morto, algo sem vida – na verdade a morte existe em mim – o que me mantém vivo? Eu sou um nada. Sou tudo o que menos espero ser.
Os insetos zombavam de mim, eu agora era o todo vulnerável. Eu era o que no íntimo desnudo todos somos: vulneráveis. Que palavra dolorida, aceitar que ela é muito mais que uma palavra me doía como um espinho encravado no calcanhar, que ao passo que se anda, mais intrincado ele se torna.
Agora eu acordo e vejo que tudo não passa de um sonho, eu sonhei que dormia e saia de meu corpo - talvez pela liberdade tão sonhada – e via-me ali recoberto por ratos e baratas de cinco mil metros.
Levantei da cama e olhei o sol que penetrava pela janela: tudo era tão vivo; apenas eu contrastava pálido com o ambiente iluminado. Caminhei pela casa à procura de algo - eu que durante toda minha milenar vida procurava, esse era meu ofício: procurar. Mas era algo inacessível exatamente pelo fato de que se o encontrasse, perderia eu minha utilidade no mundo?, deixaria eu de ter um propósito ao qual viver?
Agora eu me encontrava em meio a uma multidão de rasgados olhos. Talvez na China. Andava pelo meio atônito de pessoas, eu queria algo. O querer é funcional; ele sempre estará em primeira mão. A China é o paraíso. Adormeço novamente. Encontro-me agora no topo de uma montanha em meio à neve e vento. Trovoadas e lobos uivantes. Era o Tibete?, não, agora eu me encontrava dentro de mim. A China por certo seria o eu aparente. Eu percebia que a montanha saturava-se de neve. A qualquer momento a avalanche seria inevitável – saiam de perto de mim, se desmorono, se desabo soterrá-los-ei também – seria inevitável o vomitar daquela grande quantidade de neve. Não sei até que floco eu posso suportar; estou cansado, juro que estou.
Passam-me vozes confusas: seriam demônios? Seriam talvez gritos de séculos rompidos? Não!, absolutamente não, o que gritava eram meus pensamentos, eles eram a confusão. Despenquei.
Despenquei da montanha ao seu sopé. Caído no chão, eu era tão invisível quanto eu mesmo me era. Olhava a cada olho com o sofrimento de quem olha um filho deixar a vida: nem me notavam, e os mais audaciosos apenas diziam “ele sofre”. Eu sofro?
O chão estremeceu. Era a avalanche; eu desmoronara. Todos morreriam, oh, mas não sou cruel, não para com os outros. Toda minha crueldade não é o bastante para suprir minha própria carência, eu necessito dela com quem necessita de água: senão sufoco.
Eu chorava e gritava, porém todos pareciam não me ver. Sou invisível a ponto de não ser ouvido? A neve ia desabar sobre todos, todos seriam soterrados – inclusive eu que há muito não sabia o que era viver – soterrados por mim. Ela chegou e ninguém a via; apenas eu sentia o peso de seus flocos esmagarem-me a coluna. Eu ia aos poucos sendo encoberto por uma espessa camada, uma camada milenar. Eu já era um fóssil.
E para mais me espantar eu podia ver, eu ainda podia ver. A neve passava pelas pessoas como se elas fossem imateriais, elas ao menos notavam a presença nossa. E eu já era todo morto. E as pessoas? As pessoas continuavam a caminhar em seu rumo, iluminando-o de sua áspera luminosidade.
De Gustavo Boss
3 comentários:
Guh nossa vc realmente tem talento... Adorei cada palavra... Voce não escreve por escrever, escreve com emoção, como se estivesse vivenciando cada momento... Simplesmente perfeito.
By Kayyo Czars
Obrigado querido!
Esse é maravilhosoo já conheciaa(nem me achando, rs) parabéns sempre meu querido!
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