29/04/2015

E só assim
tu me completas:
corpóreo e terminável
e se me ligo a ti
por algum motivo
é que meu reto
foi a fôrma de teu pênis
em algum instante
primordial
da existência

É só assim: corpo éter e
Desejo.
Entre mim e ti
homem
há desejo:
fricção de carnes
que rosnam futuros
incertos
nas noites em que
pesco
em tua boca
sabores perdidos

não mais que
desejo
não mais que 
o impessoal 
limite do corpo
a dizer a verdade
do que somos:
um eu sem-fim
encarcerado num corpo
que caga.

por tal
me tens assim:
não-humano
animal
corpóreo

e nem puderas
de outra forma, ser
pois o instante arde
terminável
o amanhã 
é um vento que passa
e ainda há milhões
de doenças que irão
nos matar.

 




31/12/2014

Metafísica e caminho

"A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte"

Poética, Vinicius de Moraes




(VIDA
uma curvatura
metafísica de
anzol
o caminhar e o
fisgo
na suculência da carne
o fio que iça
arde
e não se rompe)

passo a
passo pelas
ruas
onde desfolhei
o feto
de minha infância

passo a
passo pelas
praças e
       paro

onde se articula desejo tempo clausura?

pisar tesos os
pés
sobre a crença desta
terra
feito a fagulha
do deus
no olhar do Morto:
um verbo
uma brevidade

rua a rua
latidos estrondam
            estradas
em que
deixei certezas
plumas frágeis de
flamingos
cartas sem respostas
acenos sem pupilas
Domingos

levo
apenas tempo e ponto
vírgula e espaço
pegadas e traços
o que fica:
-houve
o que vai:
-uma chispa
e o que levo
comigo
faz existir o mistério

-O meu tempo é SEMPRE


27/12/2014

Estará onde
a procurada porta
de abandono à carne?

o orifício viscoso
por onde
santa, a morte
nos defeca em céu cristão?

Onde estará a passagem da vida?
Sem faca, sem carro, sem nó.
Apenas o botão divino
que desliga os olhos
e aciona o mistério da crença

o mecanismo, onde estará
o que houvera, mas perdido
o que faltava, recebido

onde é que me deixo carne
e me sublimo eternidade?
Onde senão aqui...


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