Mãe,
Ver-te pequena, frágil
com o tempo a riscar-te a face,
os lábios secos
pelo vento
do cigarro
os braços rijos
(os braços que
desde sempre
- e ainda hoje -
seguram a agulha
de crochê
como quem prega os minutos
e cromatiza o tempo
da própria espera)
teus braços
de tendões rompidos
que prendem nos pontos
do barbante
as angústias
as saudades
os desejos
teus braços
que trançam nos fios
o desenho do silêncio
nestas madrugadas
enquanto ora
e anseia.
Ver-te, assim
faz doer-me
o nome mãe
como um parasita
habitando
o ponto mais profundo
e inaccessível
da minha poesia,
sugando, verso
a verso, o meu visco.
Me dói, mãe
- acima de tudo -
vê-la entregue
ao tempo
estática
na espera
feito quem,
após missão cumprida,
aguarda por fechar os olhos
e repousar a carne dolorida
no conforto da eternidade
de uma noite
com duração incerta.
Dói-me ver,
espalhados pela casa,
os tapetes rareados
que fiz contigo
nas longas tardes
em que também
me fazia eu
dentro de ti.
Dói-me, mãe,
porque tu me deras
alma de poeta
e em cada gesto
em cada ruga
em cada olhar
em cada pausa
da tua fala
eu vejo escrito
os silêncios da tua sina
secundária,
alheia a ti.
Dói-me, mãe
porque não vejo
nesta casa,
senão,
as tuas mãos
descosturando
tua própria vida
para fiar
a minha existência.
Dói-me, dói-me
tudo o que foi dito!:
as palavras afiadas
feito sabres
cravando-se
na dedicação canina
e teus olhos a me refletir
com amor, ainda que ferida.
Dói-me, como a dor
de me expulsar
um pedaço de carne,
imperfeito, ao contrário,
de dentro das tuas entranhas
no parto, o pranto
e agora, senti-la de longe
não mais como quem
prende nos nós firmes
da tua arte pequena
os instantes
da nossa existência
Vejo-te, franzina a
arrastar os chinelos pela casa
teu olhar lasso, esbranquiçado
com o peso do tempo
vergando-te as costas
e eu, um miserável,
ofereço-te poesia
enquanto você
não cansa de doar-me
os instantes dos teus dias
para me costurar
no rosto um sorriso
e dar humanidade a esse pano
esfarrapado e encardido
que tenho na face
e que a vida
não cansa de desfiar
todos os dias...
G. Castro
Nenhum comentário:
Postar um comentário