27/08/2013

Sonâmbulo

Abro os olhos ao vórtice noturno e
Esbarro no silêncio congelado.
A noite é qualquer vento desumano
Que me sopra ao ouvido o teu nome.
Vento forte vozeando. Há vultos foscos
Duma sombra espargida no vitral.
Procuro meu cigarro e ingiro o mundo
Em fumaça, ingiro também câncer.
Preencher o vazio imenso que há no peito
Com fuligem, tumores, gânglios mortos.
Soluço. Escrevo. Penso. Fumo. Eu
Sou o que ficou dito num sorriso
Com a saudade na reta do teu nariz.
Eu pude ver no branco de teus dentes
Com um sorriso de canto-de-boca
As palavras que tua voz silenciou
E você nem sabia que assim, estava
A me dizer verdades e desgraças.
Agora somos, noite e eu, irmãos nômades 
A peregrinar quietos sobre os teus
Passos secretos, sólidos, bordando
Os caminhos mirados por teus olhos.
Caminhos que eu não segui contigo.

A cama fria acolhe meus anseios.
Repouso como o Monge das Cruzadas
E aguardo, pois por sonhos o destino
Não toma nada além do que não foi.
E sobre o que poderia ter-nos sido:
Este será o mistério da existência.

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