13/12/2012

Confissão


Habito tanto fora, que não existo cá,
Onde me ser é estar além de mim
E existir é ser fora do que sou.
Esqueço que existo sem saudade
E a sina humana se desdobra
Ao esperar por algo vivido
Que viva além do que me foi.

Revivo morto o que já esteve, e
Digo que nada me fez vivo
Que hoje me traga saudade.
Saudade de sê-los de novo
E não de tentá-los ser.
Eu nunca os fui
E isso decerto é fracasso.

Afirmo que um dia eu já me fui!
Posso que recordo quando o era
E não sei se aquilo me era ser.
De qualquer forma era mais eu
Do que sou no instante de já.
Nesse sou um mosaico.
Dos grandes.

Me veem como não sendo.
Devo ser colcha de retalho
Diante dos olhos que me olham
Martirizados e enxergam meu vazio
Que para mim não possui brechas.
O passado não volta.

Agora  rimo bolas de basquete
Com notas de trompete
Porque assim não foram
E assim não pude sê-los.
Dois sonhos de crianças
Que ainda são sonhos de criança.
Tão meus.

Eu invento tanto
Que não seja mentira
Porque se não vivi, queria ter.
E isso é a maior verdade que existe em mim.

Eu grito-me diante de tudo.
É calar, gritar em Gustavês
As semânticas são antônimas
E a sintaxe eles fingem que sabem
Quando me riem - eu sei –
Desgraçados às costas de mim!
Mal posso eu viver o que criei.

Roubei um sonho e cuido dele
Como se fosse o único meu
E desde sempre ao escrever
Eu nem sabia que o tornava possível.
Roubei um sonho, mas não sabem
Porque o guardo como meu.

Existir é o que sou aqui,
Viver eu já meu fui lá,
Sonhar é além de mim.
No fundo eu só quero ser
O que sempre quis ser
Mesmo querendo algo
Que nunca foi meu.
[e isso finjo não saber]

Nenhum comentário:

Seguidores