19/04/2012

Discurso Fragmentário ou Fragmentos de existência.


Texto superficialmente revisa. Aceito correções. 

Fora feito, dentre outras funções, para espargir-se. Feito para o grande, o imenso que o mundo pode oferecer. Liberdade, era esta a sensação que buscara incessante durante toda sua insignificante existência, porém... Não havia porém, não havia nada. Apenas o desejo imódico de difundir-se. Por questão de honra, era preciso existir. 
Doa-se ao mundo, quando o mundo pode nos fazer ser, de algum modo, único. Mas, como água e óleo, ele parecia não se misturar àquela imensidão. De qualquer forma, o mundo parecia não aceitar a sua existência, enxergada de forma tão rápida, a ponto de ser apenas mais um coração a palpitar. 
-Escrevo como quem dá ao assassino o punhal. Escrevo para matar, a mim, a algo; desenrolo as voltas dos pensamentos, desato os nós, os embaraços, sem saber o quanto ainda me resta. Mas há de ter um fim. 
 “Vais, e faça do mundo tua vitória, desafie-o e o vença.” Acordara com os pés gelados, seu corpo transpirava como o de um doente. O calor ardia corpo adentro, mas sua pele tremia com o frio do quarto. E na manhã de domingo, a vida saltara-lhe aos olhos. Aquela realidade despida de eufemismos, despida de sonhos. A realidade que ele evitara enxergar... 
Ele devia despertar logo, os dias haviam passado depressa, e esse não seria diferente. As horas, curtas, desapareciam. Com dificuldade, antes de se estatelar diante da porta do guarda-roupa, levantou-se. O sol já era alto, pôde então ver os raios entrando através da janela da cozinha e drenando todo o verde que o triste copo-de-leite possuía. Sua mãe gostava de flores, mas não com aquele gostar que se dê a um cobertor em dia de tempestade. Era gosto implantado, pois mulher devia gostar de flor. Ela nunca as regava, mas não se sabe como, elas resistiam. Talvez pela piedade de alguma tia, que passara na cozinha tantas vezes ao dia, a ponto de se compadecer com a secura da flor. 
Ele ficou parado, por alguns minutos, diante do espelho da copa. Sua pele, extremamente oleosa, fulgurava como reflexo. Reparara algumas espinhas sobre o seu protuberante zigomático. Sempre gostara de espremê-las. Era um desejo de infância ter espinha, pois à visão dele, elas conferiam um ar de maturidade. – Desde que não me deforme o rosto -, pensou com suas hipérboles. 
Após seus cuidados matinais no banheiro, e reparar que seus dentes, mais do que o normal, encontravam-se um tanto quanto amarelados, por conta do tabaco excessivo. -Fumara constantemente nos últimos meses; toda forma de fuga era válida. Eram seus dez melhores amigos ali, dentro do maço-. Só após, saiu.

*** 

Apenas se via as costas magras, com aquela roupa de quem se entrega ao tempo. 

A fina perna, apoiada sobre a outra, parecia prestes a romper-se. 
Cuidava da louça. A pia era uma montanha que ameaçava engoli-la a qualquer momento. Quando se fala de mãe, às palavras são mais doces, mais ditas com aquele arrependimento vago. Pobre; toda vida dedicada à casa, aos filhos que nem sempre sabiam reconhecer o teu esforço e ao marido, que ainda vivia nos tempos dos coronéis. Mas já não fazia por completo o papel da esposa. Diz-se que quando o tempo se transcorre, é raro um casal resistir. Agora sim, o amor era puro. Agora sim era só amor. Sem o desejo dos corpos, posto que até a repulsa estivesse no lugar, sobraria espaço para a felicidade. Agora só o carinho e a ternura de trinta anos de convivência. 
Era impossível olhar a mãe, sem sentir aquela pena. Aquele dó por se ter dó de mãe. Ela continuara com sua louça, e ainda restara-lhe a casa toda para limpar. E o garoto não teria a capacidade de retirar um grão de terra do móvel para lhe ajudar. Seus compromissos tomariam seu tempo. 
Colocou então uma de suas pouquíssimas roupas; algo mais moderno, com um jeans customizado. Sua mãe sempre reclamava da ausência que ele deixara na casa ao sair, pois a semana toda eram poucas as horas que ele passara com a família. Cansara-se dos olhos que lhe fitavam, irritados, curiosos e com medo. Cada palavra, por mais que não, parecia ter algo de irônico entre as sílabas. Ele era grande, a sua alma era do tamanho que se pode imaginar a maior das coisas, por isso não cabia mais ali. Sua casa, onde suas raízes estavam implexas, onde sua vida estava escrita, não era mais o lugar que ele conhecera há quinze anos. As pessoas mudaram, porque ele havia mudado. 
-Há de se retirar do verso, de alguma entrelinha meu deus! Mas onde irei encontrar? Em qual página, posto que cá no mundo, tudo desapareceu? Vou desvendando cada linha, na esperança – palavra que me enoja – na esperança de encontrar. Mas o quê? Encontrar o que ele procura; e dar-lhe a certeza?, isso já seria óbvio demais. Penso que seria o seu fim.


***


“Quantos sonhos mais, o mundo ainda pode furtar-nos?” Uma voz de extrema candura, mente à dentro, o fez chegar a uma conclusão extremamente óbvia; concluíra que para perder, basta possuir. Mas como pudera perder tantos dos seus sonhos, aos quais ele jamais tomara posse?
Entretanto, ele, de algum lugar, sempre encontrara forças para não desistir. A esperança – Ah... – acompanhava-o. Não a esperança de quem acredita que irá vencer... Talvez fosse aquela esperança que é inerente, que está enredada em nossos genes. Porque é uma regra: nós devemos acreditar na vitória.
O mundo era o céu estrelado, que o ser humano insiste em capturar, sem antes conhecer cada estrela. E os que mais se arriscam nessa compreensão, são sempre os que mais se ferem.
A felicidade, por certo, era algo que o incomodava, tanto como uma pedra no sapato. Ela não é nossa, mas existe. Penso que, o que ele na verdade buscara, era a resposta que levaria a ela. Eu sei que ele se questionaria, mesmo feliz, com o porquê de cada sorriso.
“Mas será imenso em teu futuro, de lúcida paz, lúcida certeza... O que há, é apenas um pouco do que existe.”


***


De óculos escuros ele sentia-se protegido. Os seus olhos eram como os órgãos que fabricavam a vida. Na sua concepção era vergonhoso mostra-los nus, a não ser que o fizesse em horas que seu uso era de extrema importância.
E assim, com os olhos escondidos, ele colocou-se a caminho. Estava prestes a encontrar o alguém que seria sua companhia, o seu estandarte de guerra.
Caminhara firme, a toda extensão de seus passos. Logo mais, aquele olá de vizinha alcoviteira lhe arranhou os ouvidos, mas seu cinismo fantástico respondeu boa-tarde de forma tanto quanto circunspecta.
O carro já estava ali, como um soldado na trincheira. Mas o era arriscado, sua tia morava ali nas imediações, e passara constantemente ao dia, para ir a sua casa.
Dentro do carro, enfim, ele pudera existir de maneira sólida. Sem olhos, se vozes, sem lágrimas. Sem orações.
- ...
Não era amor, ou talvez fosse. O grande problema é que só pudera comparar este sentimento com o que fora, por muito tempo sua própria vida. Mas agora, pela primeira vez, aquele alguém não o sugava. Acrescentara tanta vida ao sorriso do garoto, como nunca antes haviam feito.
“Amaras somente pelo amor, e além, amarás por como ficará tu, ao sentir um coração tocando o seu.”
Fora um beijo curto, sem tempo para língua. Não houvera se quer beijo através dos lábios. Era algo sinestésico. Beijara com o corpo, falara com os olhos. Era sim um amor.
-E mais uma vez ele se doara. Como tudo e em tudo, e mais uma vez na vida ele estaria a se arriscar com suas demasias.
Foram, com as mãos dadas, circular pelas ruas da cidade. Todas aquelas esquinas e árvores, pessoas e cachorros, todos, sem exceção pareciam-no conhecidos de longas datas. E cada olhar parecia busca-lo.
Poderia dizer-se então, que a tarde sorrira. - Logo lhes vêm à cabeça raios de sol, pássaros, grama verde, bolas vermelhas, cachorros correndo e crianças sorrindo. Não?
Mas por que a tarde sorria apenas quando seu tempo era claro e sem fim? Para o garoto, nos dias chuvosos, onde o sol era vencido pelas nuvens e toda aquela inquietação se aquietava, era quando o dia sorria. Só assim o dia encontraria aquela fleuma que a civilização roubara-lhe.
As mãos não se separavam. Por horas, as marchas do carro eram, de forma atrasada, passadas de acordo com a necessidade. Nem para isso ousavam soltar-se.
“-Tens da vida os limites. Tens de ti as forças. Tens do mundo os obstáculos”
Dos amigos, pode-se dizer muito. Uns estavam em sua vida por semelhança de alma, outros porque haviam de ser. Tantos deles existiram, tantos deles foram os melhores que jamais houvera de ter em vida, e tantos quantos esses, se foram. Alguns permaneceram, de forma estranha, mas ainda estavam ali. Outros, nunca mais vistos, deixaram de existir apenas fisicamente. O garoto sempre vivera tudo de maneira máxima, então todos foram eternos, à medida que duraram.
Contudo, toda perda deixara sempre um espaço enorme no garoto. Por pior que fosse o que ele houvera de perder, sempre sofrera por isso. Sabia, no fundo, tirar algo de essencial das pessoas.
Pois teus olhos eram como os céus, tão profundo em suas cores, tão real e impalpável, porém tão meus. – Veio à cabeça do garoto. E eu posso sentir toda essa realidade exacerbada em forma de cor. Fora por toda a vida do menino, a busca, a busca desta partícula infinita de realidade. Entretanto, agora, não encontrara a maneira de se dissolver nessa cor. Parecera então, que em algum nuance daquele verde, ele houvera perdido algo. Algo que buscara pela vida toda. 
São profundezas vivas, cheias de mim, cheias do mundo. E em nada me abreviam a existência os olhos teus. Estão sempre a me acrescentar de alguma forma, acrescentando a quem o mundo tantas vezes oxidou. - Ele quem disse. 
Mas falta... Falta encontrar a maneira de se permutar dentro dessa realidade organizada que são aqueles olhos. E através disso, -ou não.
“-Liberta-te dos dois olhos negros que abreviavam tua vida. Liberta-te destes dois olhos negros que são os sonhos.” 
Fácil seria só existir, mas viver o era imprescindível. “– É sempre bom lutar, mas só é racional quando se tem um porquê."


***

Morre-se de fome, morre-se de sede e da peste que habita nas sarjetas. Mas não se morre do mundo. Seria sublime. Morre-se de desgosto, mas não se morre do motivo. Morre-se até de morte morrida. Mas não do ato, não se pode morrer pelo próprio ato, e sim, das consequências dele. Eu sou o que há de real no mundo, e de irreal também. Sou o escuro, faço o escuro. No momento eu só quero existir assim: brincando de Deus, e sem saber onde essas linhas vão terminar.

***

Arranhara os seus olhos uma lembrança. O guarda-roupa nada dizia, mas estava ali, e era um móvel feliz. Uma lembrança branca, porém pudera imaginar em relances, que fora algo braço e maciço. Algo como formigas andando dentro do seu corpo, como se seu coração fosse feito de algo coloidal, e alguém colocasse a mão ali e agitasse e desse movimento àquela mistura.
O tempo já havia se transcorrido, o carro já o deixara, e com ele partiram também aqueles olhos que iluminavam tudo.
No quarto. Olhara por momentos fixos as arestas das paredes que pareciam unidas como células, impedindo-o de escapar ou ver o que se passara lá fora enquanto ele estava ali. Lá fora, tudo era tão arriscado. Lá onde a mãe, o pai, avô, tia, cunhado, irmã, sobrinho, papagaio, primo,... , onde muita gente sorria e conversava; e eram muitas palavras, poucas delas ele poderia tolerar. Sorrisos conformados, vozes caladas, e olhares de derrota. Isso não era seu.
- Como posso fazer para amenizar a tua dor? - Se você sente com ele ou como ele, continue. – Poderíamos nós juntos, chegar à solução? Pois eu já sou muito ele. – Alguém divagou.
“Amar e não ser amado; seria essa forma mais sublime de sofrer?”
Porém amava, mesmo não sendo talvez, esta, a palavra correta. Ama-se quando se acrescenta um ao outro algo de bom, algo de triste ou ruim, mas algo sempre mútuo. E só agora ele pudera saber como era sentir para si e sentir em si esse tal sentimento.
Não tinha por costume sonhar. Adormeceu como quem morre sabendo da ressurreição daqui algumas horas.
Poderia dizer-se, quanto ao seu trabalho, que fora por muito, o melhor e mais gratificante que pudera escolher, mas agora isto era apenas mais uma de suas realidades distantes.
-Pouco me revela este garoto, pouco consigo desvendar dos mistérios da sua existência, e ao passo que me aprofundo, mais confuso e desguiado me sinto por estas linhas ermas...
Amanheceu. Acordara com seu celular tocando, pareciam pedras sendo atiradas dentro dos seus ouvidos. Com o sol alto, pleno, e iluminando a penumbra do quarto ele acordara e reclamara. Era hora de enfrentar a vida. “É, em todo, sumamente prático viver a vida que nos dispomos a viver, entretanto, quando obrigados a viver o que o destino nos reservou, isso pode ser a morte do sorriso em cada rosto.” Levantou-se.
Havia algo que o atraía no fato de usar barba; algo por fazer, espontâneo, mas extremamente intencional. Isso não lhe era permitido, pois fazia uso de caras e bocas para poder trabalhar de modo que agradasse a – talvez a todos, menos a si – agradasse a quem estava com as ordens em mãos. Não que em momento algum, houvera pensado que o fato de usar a barba o negativava em específico ponto. No entanto, quando as pessoas acham, nos devemos ser.  Regras, algo que o limitava de maneira indescritível, mas ele as respeitava em alguns dias da semana.
Naquele covil, um cubo imenso, branco e iluminado, onde minuto em minuto os telefones tocavam nervosos, as pessoas traíam, mandavam. Talvez fosse essa a descrição real de família, do ponto de vista interior àquele ambiente. Mas havia algo que o fazia suportar, era preciso um emprego. Ali, podia ver de sua mesa, tudo. Era como se fosse Deus, do Céu, vendo cada uma de suas marionetes. A diferença era: ele só as vias, não as dominava. Alias, não sabia ainda que o podia.
As pessoas entravam em saíam o tempo todo. Gente viva, outras que só se esqueceram de morrer. Mas em cada uma delas, era podido ser visto por ele todas as dores. Como se cada ruga, cada expressão em cada face pudesse contar uma história. E ele as tomava para si. Sofrera tantas vezes o dia todo, pelo simples fato de ver alguém humilde. Tão observador e sensível. Por fora, resistente e centrado como a montanha que rompe os oito mil metros.

***

Existe algo na vida que me cansa. Algo que identifico nesse menino. Algo que a torna desinteressante e me faz querer sempre desistir. E como só tenho a vida, eu quero me entregar. Não há nada que seja meu, para que eu possa abrir mão. Só um fator: eu existo; e é disso que eu quero desistir. Porque há um coração vazio e um sorriso abarrotado em mim e não encontro algo que preencha minha solidão. São as palavras que me ocupam espaço. Mas é preciso torna-las reais.
Aquele lugar, era um espinho no couro. Algo ali estivera por todas as horas do dia, apertando o peito, fazendo-lhe com que o coração palpitasse na garganta. Por horas, pudera concluir que, no lugar do cérebro desse garoto, há um coração que palpita. Contudo, era aparentemente agradável mostrar-se forte a sim mesmo, e ele resistia, com um ou dois sorrisos. Afinal, quando precisasse sê-lo, no banheiro talvez, ninguém o escutaria.
Pudera se lembrar, por toda a vida, concluo, de alguns fatos interessantes que lhe ocorrera no trabalho. Algumas pessoas em especial, entravam e saíam dali como vírgulas surgem nos textos. Algumas, pode-se dizer, que eram pontos finais. Roubara-lhe por muitos minutos a atenção. De certa forma, quando se trata de um garoto como esse, ninguém passara despercebido aos seus olhos. Havia algo nas pessoas que ele enxergara, e disso pudera tirar tantas vezes, conclusões que ninguém poderia encontrar. Muitas vezes, nem ele ao menos soubera do que acabara de concluir, mas aquela pessoa que passara ali, tão brevemente, havia acrescendo algo de soberana importância a sua existência. 

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