08/09/2011

O Conto do Abismo.




Ele olhara mais uma vez; e outra, e tantas mais. O teto. O chão. Os livros que dormiam em transe. Olhara como quem olha o vento, ao sentir com os olhos algum aroma amargo e febril. Tu podes perdoar-te, tu podes! – Diziam vozes dentro da cabeça.  Porém, ele não queria. Não. Faltavam-lhe sorrisos, olhares e carícias para o perdão. Ele queria o castigo, de eternamente, amar e comprovar sua teoria de que o amor é unipolar – como lhe foi dito. Como pudera, deixar assim, este monstro nascer dentro de seus olhos, crescer em sua cabeça, e, certamente, morrer enclausurado em teu peito? Ele permitiu que o alimentassem e agora não dominara tua própria criatura.
O tempo fez contacto com os olhos daquele garoto. O calor que fazia com que suas costas transpirassem em demasia, umedecendo a colcha da cama, estava a assar-lhe o corpo. O ventilador fazia um vento abafado, como um suspiro constante. E então, num piscar dos olhos, a noite começara a revelar a luz das estrelas. O relógio marcara por volta das dezenove horas e uma lágrima sorriu.
Passara o dia todo, ou deitado, ou a transitar incessantemente pelos cômodos da casa. Como nada tivera o despertado a vontade de se alimentar durante todo o dia, como que por obrigação, resolvera beber um copo de café com leite e comer bolachas de maisena. Seus pais giravam pela casa, ocupados demais para ver sua expressão que, por si só gritava em agonia.
Ele precisava de algo que levasse teus pensamentos para longe. Passou-lhe então, que atualizar os fatos em seu diário, que era mais que um amigo, seria uma boa pedida. Terminou de mastigar a ultima bolacha com esforço e trancou-se no quarto novamente.
Por mais que tivesse tantas palavras para contar, as linhas eram como fumaça, intangíveis. Conseguiu um desabafo piegas, a ponto de enjoar-lhe.
Alguns ruídos, certamente vozes, chocavam-se contra a porta do quarto. Reconheceu entre eles, a voz da tia, a predileta. Por ela fez teu gosto literário e também musical. Por ela chorara tantas noites de saudade. Mas agora, tua dor era maior e tuas lágrimas tinham outros motivos. Voltou-se ao diário.
Então, um toque suave e ruidoso fez a porta vibrar. Era a tia, pedindo-lhe então, permissão para entrar. Ele não queria, nem ela nem ninguém. Queria o mais solitário dos mundos, silencioso, úmido e escuro. Porém, era ela.
“Está aberta” – Disse ele, num to mais grave que o comum.
Ela olhou dentro dos olhos misteriosos do menino, que sempre entregava teus sentimentos, porém nunca as razões.
Nada mais foi dito. Sentou-se ao lado da cama, beijou-lhe a testa e com tuas mãos tão brancas, fracas e rechonchudas, apoiou-lhe a cabeça sobre o peito.
“Agora tu já podes chorar, meu Rei.” – Rei era como ela o chamava.
Apenas gemidos. As palavras ficavam presas em sua garganta, como se fossem grandes demais para sair.
“Tu te lembras da tua infância? De quando juntos, cavalgávamos até a entrada da mata, e então, íamos juntos pela aquela imensidão, desvendando tantos mistérios e nomes de árvores e plantas?” – De súbito, relembrou a tia estes fatos.
Ele, com os olhos entreabertos, assentiu com a cabeça.
“Tu, de nada sabias. Com o tempo, passaste a ver que a urtiga feria-lhe a pele, e aquele cipó poderia dar-lhe água. Aprendeu que as folhas secas das carnaúbas caídas ao chão guardavam segredos. Passaste tanto tempo, e tantas cavalgadas que hoje sabes dos segredos. Sabes que lá, o mundo anoitece mais cedo. Sabes o que pode ferir-lhe, e caso isso ocorra, saberás também como encontrar a cura. Lembra-te como tu eras valente e curioso?” – redigiu ela com tanta ênfase essas lembranças que ele sentiu na boca o gosto do passado.
“Tia, - foram tuas primeiras palavras – tia, o que queres me dizer com isto? Sei o quanto fui feliz quando pequeno e tu sabes a falta que eu sinto dos nossos passeios ao ar livre. Entretanto, agora, não quero me lembrar de nada...”
Ela sorriu, tão sábia e serena como sempre fora. Por toda a vida aquele sorriso acompanhou-lhe os passos e agora, mesmo já maduro, ele ainda estava lá, altivo e lindo, como o império de um deus.
“De nada quero que tu lembres, mas sim, que apenas enxergue o quanto tu és capaz. Quando tu estás em queda, enxerga apenas o curto espaço de tempo, até então, chegar ao fim. Mas se puderes enxergar que te levantarás, ferido sim, porém destemido, terás então encontrado a essência de uma queda. É como se estivesse a saltar de pára-quedas. Por primeiro, temerás e hesitará a saltar. Até que então, com um empurrão, desmancha-se em queda nos céus. Em quanto estiver a cair, não te lembrarás do que te pôs em queda e nem do que te apararás. Somente o vendo e as borboletas a baterem asas em teu estômago. Porém, em um próximo salto, mesmo hesitante, terás coragem de tu mesmo te por em queda e sentirá as mesmas sensações, e saberás também que o pára-quedas se abrirá para te amparar. Quando saltar novamente – dizia ela olhando profundamente nos olhos do sobrinho – quando saltar de novo, saberás das dores e delícias do cair, e reconhecerás a possibilidade do pára-quedas falhar, porém estará ciente do que fizeste e de que o tempo em que esteve em queda foste único na vida. Só teme ao abismo, quem desconhece a queda.” – ela, tão serena, dizia-lhe aquelas palavras como uma avó a contar ao neto, histórias.
Ele vagueou o olhar pelos cantos do quarto, e ela sorria-lhe.
“Tu, puseste-me em profunda divagação.” – dizia ele, com um sorriso economizado.
Ela assentiu com a cabeça. “Então, pois, vamos por parte” – disse.
“Estás a aceitar a tua queda? – disse a tia, e então o menino se expressou positivamente com as sobrancelhas.
“Sentiste todas as sensações e medos ao cair?” – Ele só concordava.
“Quem te deu o empurrão, para então desabar nas nuvens?” – disse ela com tom especulador.
“Quem foi, não merece estar aqui. Porém, quem concordou em subir no abismo fui eu!” Disse o menino como quem assume um erro.
“Tu estás a entender meu raciocínio” – comemorou a tia.
“Em todos teus saltos, o pára-quedas falhou-lhe em algum? – ela já sabia da resposta.
“Sim, digo que sim” – respondeu ele automaticamente.
Ela segurava a mão do sobrinho, tão sem vida e trêmula e prosseguiu:
“Errado. Se te falhastes, não estarias aqui. Por mais que aches que foi o fim, sempre terás um pára-quedas reserva, e então por puro gosto, retomarás um novo salto.” Indagou ela.
“Onde tu queres chegar, tia?” pergunta ele exausto de tanto raciocinar.
“Quero que vejas que agora está iniciando o salto, com medo e hesitante. Mas logo aprenderá os macetes, como aprendeu a reconhecer plantas, e então continuará por vontade própria, sem temer à queda. Até que então, o tempo se encarregue de mostrar-lhe que não podes mais.” – disse como se estivesse a se livrar de um peso.
“Acho que entendi. Hoje estou com medo, e não quero continuar a saltar. Mas já me envolvi demais, e continuarei. Eu subi no abismo e permiti-me saltar. Agora prosseguirei. Até quando o tempo diga-me que não tenho mais condições de me lançar. E se antes disso, meu pára-quedas reserva não se abrir, estatelar-me-ei no chão, sabendo desta possibilidade. E caso sobreviva, o que por certo não ocorrerá, saltarei novamente.” – concluiu o garoto.
“Sim! Agora tu estás em contato com tuas essências e causas, motivos e razões. Coloquei-te em contato com teu eu, e assim como te ensinei sobre árvores, ensinei-te agora a aprender com tuas quedas não a temê-las.” – disse ela satisfeita.
Por toda a vida, sempre, bons ou ruins, seus momentos foram cercados pela presença da tia. Quando em noites, asfixiava-se por falta de ar, a tia estava lá, a abanar-lhe. Quando então, o escuro lhe afugentara a coragem, ela a fazia renascer. E assim fora agora. Havia algo de sobrenatural naquela mulher, um amor incondicional, que a fazia estar sempre presente.
Com um abraço apertado, ela se despediu satisfeita do menino, que agora não mais chorava. Levantou-se e abriu a porta, olhou novamente os olhos do sobrinho e mandou-lhe um beijo. A porta se fechou e ele de novo viu a solidão, mas agora teus pensamentos lhe faziam companhia. Pegou então seu diário de pressa, para não esquecer nada do que lhe foi dito, e registrar cada vírgula daquela conversa.
A madrugada já estava sorrindo, e ele perdendo-se nas linhas.
Inspirado, depois, pôs-se a escrever um conto, como sempre fizera, desvendando com palavras tua realidade incompreensível por si só.

 Gustavo de Castro.

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