05/07/2011

O rio.


Ele olhara para o céu. Olhara como quem busca no profundo azul algo de terno e seguro. Mas até o que lhe era tido como divino, estava a renegar-lhe um feixe de luz, se quer uma nuvem a desenhar-se como água em queda.  Fechou então o livro. – Não fechara páginas, cortara a corda que o prendia na dimensão da fuga.
Olhe bem, tu estás aí ao passo que me faz estar também. Veja, tu consegues enxergar que meu sorriso depende tão somente da tua vida ser a minha vida? Não se pode fazer do amor apenas amor. Amor visto como sentimento mostra-se fraco. Amor só é amor quando se busca o definir, mas não há conclusão de. E é assim; tu estás no meu sangue, na minha urina, na minha linfa, na minha saliva, no meu sorriso. Mas não sei se eu estou em você. Mas não sei se dou a isto o nome de amor. Não sei se posso comparar algo que me mata, com uma coisa tão divina...  – Fora feito para o incerto. Ele era em todo, apenas uma pergunta.
Já havia se passado alguns minutos de quando fechara o livro até o momento em que a dor o despertara das suas divagações. Como se existisse em seu peito um balão a inflar, sem espaço, pronto a estourar. Respirou fundo e abriu novamente o livro. No muito uma página fora o que ele lhe permitira ler.
Vieste e foste. Vieste, foste novamente. É como salvar o afogado dando-lhe água para beber. Tu precisavas provar-te que em mim, ainda mora aquela coisa que alguns assisados chamam de amor? Tu precisavas carregar no peito este troféu? Esquece, pergunto-te apenas: tu realmente precisavas voltar?
Embalara a rede enquanto uma brisa de chuva umedecera seu rosto. Ele queria chorar, mas não conseguia. Não se sabe por que, as lágrimas faltaram-lhe naquele instante. A necessidade de mostrar a não se sabe quem que ele sofria era forte a ponto de coçar os próprios olhos e lutar para mantê-los abertos, ardendo, até que repletos de água vertessem lágrimas. Enganando, mentindo para si próprio. Só assim ele pudera perdoar alguém.
Suas costas começaram a doer pela má postura que se encontrava. Ele preferia achar que a dor, era pelo fato de seu peito não suportar mais o peso de amar. Ele preferia tudo que não fosse real, toda e qualquer coisa que lhe desse a opção de desacreditar. Por isso acreditava nos homens.
Devo ir...! Mas onde? Estático aqui, rocha, fóssil...?
Sabia que devia ir, e era só. Por tal, vestiu-se e colocou-se a correr, sem ritmo, sem coordenação, sem destino.  Buscara o ar puro que o campo podia lhe oferecer. Na verdade buscara solidão, mas os pássaros e as árvores insistiam em acompanhá-lo. A estrada de asfalto ficou para traz, e um passeio de terra batida se prolongava até onde se pode ter visão. Ele precisava ir. Cansou. Pôs-se a caminhar a passo lento e ao longe avistara uma ponte de madeira, dessas de quadro de Monet.  Ao cruzá-la vira abaixo uma água de um negro tão profundo, tão morta, calma, densa e espumosa.
“De tudo ao meu amor serei atento, antes e sempre e tanto, que mesmo em face do maior encanto, dele se contente mais meu pensamento”. Tenho uma porção de poemas que ainda quero recitar-lhe, uma porção de abraços para lhe dar e tantas vidas para morrer de amor por ti. Foste mesmo? Eu sei da resposta. Hoje eu me perdi, por perde-lhe me perdi no negro do silêncio. – Ele não controlava seus pensamentos, tinha um coração no lugar do cérebro.
Descera o barranco íngreme, apoiando-se na raiz de uma aroeira. Tocou então a água com a ponta dos dedos, o braço todo e depois a jogou contra o rosto. Estava acolhedora como colo de mãe. Era profundo, seus pés não conseguiam tocar o chão lamacento do rio. Boiou por horas ali, como se suas células tivessem se dissolvido em meio àquelas moléculas negras de água.
O rio não ama, o rio não chora. Ele também não precisa dos outros. O rio tem apenas uma missão na vida, a de ir. Não importa como e até aonde. Ele apenas deve ir. Mesmo poluído, mas quem não se polui nesta vida? Mesmo desviado, porém todos nós somos desviados, ora de caminhos, ora de conceitos e princípios. Mas eu ainda preciso ir. – Pensou enquanto agitava a água a sua volta com os braços e jogou-se à margem.
Havia deixado ali, na sombra da aroeira seu celular e suas roupas.
Ao menos uma vez na vida me deixem ser e hoje eu quero ser um rio. – Fora o que escrevera no seu celular e mandara a todos os contatos de sua agenda. Rasgou sua camiseta e com ela amarrou firmemente seus pés.  E com o restante amarrou os próprios braços, frouxamente, mas era o que ele queria; não se soltaria por nada no mundo. Rolou até o fim da margem, olhou o céu que parecia assistir estático o espetáculo. Ele ficou ali alguns segundo e quando pensou em pensar já estava em meio à água negra. Nem um movimento, nem um grito, ele aguardara pacientemente seu oxigênio acabar, e, por fim, uma forte tragada de água.  Queria o rio dentro de si, queria que suas células fizessem parte daquela coisa misteriosa e divina que fluía como sangue em veias. Boiou a superfície como um isopor recortado, indo com a correnteza que calma, cumpria com a função mais nobre do mundo.  Na verdade ele só queria fazer como o rio: ir.


Gustavo de Castro.

2 comentários:

Luiz Rosa Jr. disse...

Extraordinário, gostei bastante de tua escrita, extremamente poética e simbólica na narração que envolve seus personagens, criou uma metáfora incrível entre o rio e o menino que no final acabaram por se fundir. Parabéns pelo texto e pelo espaço, gostei bastante, com certeza sempre estarei por aqui,

um cordial abraço.

Gustavo de Castro disse...

Sou eu quem agradece a visita!

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