Ele tentara por hora, desvencilhar-se das imagens que surgiam como estrelas no céu. Tantas e diversas, a ponto de não mais identificá-las. Sobre a cama que dormira e fizera dos sonhos fatos, hoje alguém escorre em fluídos todo o prazer majoritariamente carnal dos corpos. Sobre os lençóis que acalentaram seu tremor – com causa e motivo certos – quantos ainda não vão segregar, por puro bel-prazer, os líquidos telúricos do caos mundano?
Covarde, como quem foge e ignora a si próprio, buscara na noite bucólica algum aroma, brisa, - ou quem sabe, alguma fênix a voar distraída por aqueles céus -, buscara qualquer coisa que roubasse seus pensamentos e os levasse para longe.
No relento, deixou-se entorpecer pela luz que irradiava das estrelas, e a lua, toda branca, assemelhava-se a uma lâmpada no teto de um quarto. A cor que ele ganhara pelo contraste destas luzes, tão buliçosas, o fez lembrar-se de como seu corpo ficara dourado, banhado pelas claridades daquele cômodo. Logo, a cama lhe assaltou a mente, sorrateira e sagrada, como o leito de um deus. –Não se pode fugir de si; talvez seja esse o pecado imperdoável da humanidade.
Ele a queria, de qualquer modo, queria aquela cama. Sentia uma carência tão imensa da, que por instante, confundira seu desejo de possuí-la com amor. Ele a amava.
Varriam sua mente, pensamentos insanos. Ele queria protegê-la do pecado humano dos corpos, com todo o respeito e autoridade que se protege os altares da volúpia. Queria abraçá-la e livrá-la da tortura, como quem encosta sobre o peito a criança recém nascida.
Respirara fundo e algumas asas velozes agitaram-se em seu estômago. Alguém estava contaminando aquele santuário, aquele portal de extrema sobrenaturalidade. Alguém balbuciava gozos ecoando-os pelas paredes do quarto que a abrigava.
O céu tingiu-se de verde-musgo. As estrelas dormiram. A Lua cobriu-se de nuvens. O mundo fechou os olhos para não ver, sobre a cama, o pecado sendo consumado. Sentira-se como se deve sentir ao pensar em humanos fazendo do Deus, a solução para suas necessidades fisiológicas.
Deixou a noite despedindo-se com um suspiro, e mais por hábito do que por necessidade, encheu um copo com água. Colocou-o contra a luz e a viu reluzir ali. Em transe mergulhou seu dedo dentro do copo e o agitou. Era isso, era exata e irrefutável a sensação. Sentira-se assim, como se seu coração fosse composto por algum líquido coloidal e alguém mergulhasse ali todo um braço e agitasse-o freneticamente. Estremeceu.
Não o apetecia o fato de estarem humanizando o que para ele era tido como sagrado e por tal, martirizava-se como se pudesse evitar ao Messias, a cruz. A cama era algo de tão santo, tão místico como o próprio Messias. -Trouxera-lhe visões dos céus.
Pensara ser pecado adorar aquele objeto. Porém ele perdoaria.
Arremessou o copo contra a parede e gritou. Por mais que lhe faltasse o ar, seu grito era mudo, um som abafado. Sua visão enegreceu-se e se estraçalhou no chão, como vidro.
Era o limite, o qual ele pensara nunca encontrar. A terra o chamava para viver, era a hora de descer e encará-la. Seu peito foi-se apertando até que não restasse mais nada no lugar onde caberia o coração. Avistou a chave do carro.
Era tempo frio e enquanto o motor esquentava, agasalhou-se e foi ao encontro da cama. Num estabelecimento reservado ao prazer.
Não muito longo, o caminho fez de sorrisos e lamentos. E no fim dele estava a placa de neon reluzente.
Era um medo interessante que sentia nos minutos que precediam o encontro. Ao descer do carro, como um filme, todas as cenas invadiram sua mente como outrora, embriagando-lhe. Respirou fundo e abriu a porta.
Ao avistá-la, imediatamente viu sobre ela os corpos despidos, um deles era o seu. Cedera às lágrimas ao lembrar o quão feliz fora nas horas que, sobre aquela cama, amara, sorrira e chorara como nunca; as horas mais felizes de sua vida. Nela, eles tornaram-se homens, pássaros e lua. Se existira um criador em algum momento, ele estaria a sorrir naquele instante acontecido, abarrotando os céus de melodias.
E por tal fizera da cama um deus, canonizando-a, devotando a ela todos os seus pensamentos. Ali, entre suspiros, trêmulo e arfante, fizeram-no renascer. Beatificou-a, pois sobre ela alguém o fizera tocar os céus. E ele adormeceu.
Gustavo de Castro

4 comentários:
Estética! Conteúdo?
Concordo. :)
O corpo queima, a alma brilha, a mente explode.
Difícil traduzir algumas sensações.
Quando der visite o meu: http://www.escritosbe.blogspot.com/
Se essas sensações foram causadas pelos meus textos, fico grato por tê-los lido. E se é para divulgar o seu blog, funcionou. Vou lê-lo! Obrigado pela visita.
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