Diz-se das palavras que são asas. Pois, para ele não, eram algemas. As horas fixaram-se no tempo, como uma cordilheira a desenhar-se extremamente sólida no horizonte, somente o invisível se movia. Era noite de quinta-feira e lembranças davam-no firulas, tecendo a mente de angústia.
Seu pai chegaria por logo, lembrando-lhe que o tempo não havia parado, e como escrever não é coisa que se dá a atos masculinos, guardara o diário na gaveta e ligara o computador. Toda realidade carece de fantasia, e aos que não a necessitam, é porque não enxergam através do fato, mas sim, somente o fato.
A vida cansava-lhe e nas horas lisas buscava a fuga, mas não como quem foge covardemente, buscava-a com a coragem que tão poucos têm de deixar o real, o ventre seguro da vida quotidiana e aventurar-se no desconhecido dos sonhos. Sonhar era por tanto, algo perigoso e o era sabido. Corre-se o risco ao buscá-los, o desagradável risco de encontrar apenas o fracasso esperando com um sorriso em face, posteriormente.
Aprendera que se deve correr atrás dos sonhos, mas era dotado de um grande senso de observação e logo percebera o erro do conselho. Por mais que se lute, a materialização do sonho está ali, te esperando ou não, e nada do que faça mudará isso. Sonhos, quase sempre, não passam de sonhos. Das decepções que ele tivera, em todas, só a do amor lhe sangrava como uma chaga, um estigma a lembrar-lhe o quão infeliz fora ao amar. Mas de nada lhe serviria o choro, nada traria de volta, quem era sua vida.
Naquele dia, o céu tingiu-se de azul tão melancólico, como se com saudades, clamasse a volta de alguma nuvem que outrora houvesse passado ali. Naquele dia, os pardais choravam algo; traziam em seu canto alguma espécie de dor. Naquele dia, somente nele, toda a volta parecera ter sucumbido à dor que urrava secretamente naquele garoto. E todo o universo parecia ter anoitecido com ele.
Andara pela casa quatro ou cinco vezes, buscando algo para dedicar o pensamento. Os móveis, sua lousa e a margarida que clamava por água sobre a mesa, estes tantos personagens que outrora ele julgara serem felizes, pareciam-se desfalecer por não se sabe o quê. Por instante, pensou em aguar a planta, decaída de sede. Mas fora forte, e não faria brotar naquele inocente ser o que ele implorava para morrer dentro de si. E só restou-lhe o papel e a caneta.
Como pode este Deus, dar-nos o céu e não nos dar asas para tocá-lo? De que me servem as estrelas, se meus braços não as alcançam? – Escrevia ele. Era preferível não buscar resposta aos mistérios do mundo, era preferível não pensar nos erros do criador, para não ter de perdoá-lo mais tarde. Era preferível não preferir. Deixemo-lo em paz agora. Sozinho ele há de chorar e se lançar, do precipício em que a altura que lhe traz a queda é ilusão, e o chão que o aparará a realidade. Deixemo-lo; existem pessoas que facilmente morreriam sem ser o porquê de chorar.

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