`Às três e trinta, a madrugada lá fora é fria e sombria. E eu, estático em minha cadeira, sem sono, entorpecido por miríades de pensamentos, perco-me de mim. Hoje volto à rotina das aulas, e triste. Onde estou? Qual minha função no mundo? São pensamentos freqüentes. Sei que o presente é a moldura do futuro, é um tanto quanto fácil de prevê-lo. E eu frustro-me. Não estou satisfeito com essa moldura, ela é frágil, sem forma, sua cor não me agrada. Os adornos são da mais péssima qualidade. É possível ver-se um diamante aqui, outro acolá dando um refinado toque, todavia são tão raros quanto a felicidade em mim. Ela é moradia de insetos seculares, cupins que escavam túneis quilométricos. Alta, como uma montanha que rompe os oito mil metros ela ameaça a desmoronar. Seria isso bom, permitindo-me a construção de uma nova moldura? É difícil recomeçar. Eu procurei por você e não estava. A esse você que desconheço, dou a minha vida. Sei que procuro.
Devo passar a noite assim, olhando à parede calva e brincando com os dedos em meus cabelos. É agora um momento de exaustão, estou libertando fluidos de pensamentos.
O tic-tac do relógio, um zumbido nos ouvidos e o barulho ágil dos meus dedos ao digitar: a melodia da madrugada. E a tela inacabada sofre à fragilidade da moldura: deforma-se. Algumas pinceladas erradas secaram, e agora passaram fazer parte da obra. Abstrata. Mais de seis bilhões de pintores trabalham nela contribuindo ou não à sua decadência. Subamos!

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