14/01/2013

Incendiário passante




1.
Jaz só, no umbral de pedra
Do passeio público
O totem ressecado
Da natureza humana
Apontando infinito
Ao encontro dos ventos
Sem palmas para sentir
A força de um poente.

Jaz na cova cinzenta
O totem atemporal
Dos inversos da existência:
Berço e agora cova.

Desde além até além
Da curva espaço-tempo
Há umbrais e totens secos.
Desde além, mas nunca além...

2.
Jaz só, no umbral de pedra
Do coração dos homens
Umbrais iguais -às centenas,
Totens em putrefação
Arranhando-os por dentro.
Alcatraz imaginaria...
Na baía do destino,
Há um Ganges desaguando
Dentro de cada homem.

Há demasiado humano
No coração dos homens:
A chuva que cai dos céus
É apenas gotas d’água
Vertendo em condensação

Há demasiado humano
No coração dos homens:
O vento que afaga a pele
É apenas fluxo de gás
Em escala reduzida.

3.
Sobre o totem ressecado
Do passeio público
O incendiário esteve
Com fogo e palha seca
E um vórtice de chamas
De um inferno só nosso
Nasceu onde havia nada

E os átomos partiram
Em forma de fumaça
Ao encontro com o céu.
Deste totem ressacado
Nasceram flores e vento
Pássaros, homens e mares
Na solene valsa atômica.

4.
Jaz só, no umbral de pedra
Do coração dos homens
O totem ressecado
Da memória e amargura
Restos de gente e sonhos
Umbrais iguais, às centenas

Há incendiários passantes
Em trajes de poetas,
Em forma de por-do- sol
A tingir as brumas brancas
Também em chuva a chover...

 Mas nada existe mais
Do que o demasiado humano
No coração dos homens
E assim se perderão as almas.


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