28/11/2012

Ultraje

Há em mim todos gritos do mundo:
Dos Índios mutilados na Colônia;
Dos Negros atirados ao mar fundo,
Ecoando abafados na Amazônia.

Há tantos gritos quais foram gritados...
De plantas e animais, gritos de homem...
Do seringal malárico e ultrajado,
Do quinino deixando o abdômen.

Grito mais: pela sede dos que a tem
Na África que só existe em outras terras.
Suplico a vida frágil do refém
Que morre pela pátria nestas guerras.

Grito pela... Eu me calo, eu não mais grito!
Pois não há nordeste que me arranque
Palavra de defesa ao nosso Sangue
Que não traz outra raça nele escrito.

Não grito pelos gays, não são opressos;
Não reclamo direitos nem abrigo.
A mim já deram pão e também circo.
Tenho o lema de “ordem e progresso”.

Dou à pátria, silêncio e toda paz!
Se há comprometimento na política,
Não fundamento mais nenhuma crítica
Ao bem que meu Governo justo faz.

O grito deste jovem não me espanta,
Também não o meu brado junto ao dele.
É o que nos foi implantado por aquele
Que diante do silêncio nosso se encanta

O que há de tão temível no protesto
Destes tantos que hasteiam suas bandeiras,
Não é o risco heroico das trincheiras
E nem o contra-ataque ao manifesto.

O que me dá de nós um nojo intenso
Não é nada do que já é passado.
É a quem continuamos tão calados,
Apoiando com o meu e teu silêncio!

Gustavo de Castro

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